O mercado de fretes rodoviários não conseguiu superar o estrago causado pela paralisação dos caminhoneiros nos 11 dias finais de maio e os reflexos do tabelamento do frete, que têm afetado até mesmo o setor de cabotagem, que depende de caminhões para fazer a ponta final na distribuição de insumos e produtos. Embarcadores e operadores logísticos buscam alternativas para reduzir custos de transportes, recorrendo a modelos de gestão alternativos, novos modais e soluções tecnológicas e plataformas digitais.

Para o presidente da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística), José Hélio Fernandes, o mercado de fretes continua “andando de lado”, como o restante da economia. Segundo ele, os resultados em 2017 haviam sido ruins e esperava-se um desempenho melhor neste ano, “mas o setor deve crescer de 5% a 7%. O mercado terá que aprender a lidar e a conviver com o tabelamento”.

Operando com um modelo de negócios diferenciado, lastreado no pagamento de mensalidades por quase sete mil empresas assinantes, a Fretebras, afirma Ariadne Godinho, diretora comercial e sócia da empresa, não registrou queda nos negócios, mas a greve e o tabelamento afetaram sua expectativa de crescimento. O volume de fretes sofreu diminuição, mas o número de assinantes manteve-se e o faturamento segue dentro do previsto, acumulando avanço de 34% entre janeiro e julho ante igual período de 2017.

“Havíamos projetado, no entanto, um crescimento de 39%, que acreditamos que não será cumprido neste ano”, diz Ariadne. A meta de crescimento foi revisada para 30%. A paralisação contribuiu para alterar a sazonalidade do mercado. O volume de cargas cadastradas apresentava curva crescente entre julho e setembro e chegou a crescer 66% entre junho e agosto de 2017.

“Este é o primeiro ano em que temos uma queda no segundo semestre. O volume em julho ficou 9% abaixo de junho e agosto foi 8% menor que junho. Sabemos que este impacto foi, em grande parte, devido à greve dos caminhoneiros e suas consequências, principalmente o tabelamento proposto”, analisa Ariadne. Em contrapartida, o número de veículos em busca de carga pelo aplicativo estava em agosto 17% acima dos níveis anteriores à greve, superando o incremento de 5% observado entre maio e agosto de 2017.

Para ela, a imposição de uma política de preços mínimos para o frete tende a elevar o número de frotistas e a reduzir o de caminhoneiros autônomos, levando a uma mudança no perfil dos usuários do site, que começou a ser desenvolvido em 2006 e foi apresentado ao mercado dois anos depois. “Percebemos que os caminhoneiros ficavam parados em postos de combustível aguardando carga, sem saber que a dois quilômetros de distância havia uma carga ideal para ele.” Ao mesmo tempo, embarcadores precisavam recorrer a “chapas” para anunciar cargas em diversas praças para que o transporte pudesse acontecer com a rapidez desejada.

A carteira de clientes vem crescendo dois dígitos mais recentemente, depois de saltar 145% em 2013 e avançar mais 94% no ano seguinte. Nos últimos três anos, diz Ariadne, a carteira aumentou 46%, 44% e 32% respectivamente, com previsão para avançar cerca de 30% em 2018. “Em relação aos usuários do aplicativo, que são os motoristas de caminhão, percebemos um aumento considerável no número de check-ins, que é quando o motorista sinaliza pelo aplicativo que está disponível para carregamento.”

A Aliança Navegação e Logística, diz Marcus Voloch, diretor de cabotagem e Mercosul da empresa, espera movimentar em torno de 300 mil TEUs (contêiner de 20 pés de comprimento), crescendo pouco mais de 12% em relação a 2017, numa desaceleração quando se considera o aumento de 14,5% acumulado nos primeiros seis meses do ano. A empresa esperava incremento de 24% a 25% no primeiro semestre, previsão frustrada pela greve dos caminhoneiros, que levou à paralisação de toda a frota de navios entre a última semana de maio e a primeira de junho, porque as cargas não chegavam aos portos. “Deixamos de movimentar algo em torno de oito mil contêineres”, afirma Voloch, o que corresponde a perto de 2,7% do previsto para o ano.

A movimentação tem crescido desde julho, também em função da migração de cargas novas para a cabotagem, em busca de alternativas mais competitivas de custo de transporte, em trechos mais curtos e em rotas de descida (ou seja, no frete de retorno). Ele estima que as cargas novas representem de 6% a 8% do volume atual movimentado. Em outro efeito do tabelamento, os acordos de frete, que eram em geral fechados com prazos de pelo menos 90 dias, não sendo incomuns contratos de seis meses a um ano, foram reduzidos para 30 dias “e há muita insegurança, porque todo contrato negociado está sujeito a mudanças no meio do caminho”, diz Voloch. A greve acelerou os planos da Aliança de ampliar sua frota própria de caminhões, que atualmente responde por 10% a 15%. Em princípio, serão reforçadas as frotas de caminhões de São Paulo, que deve passar de 120 para 170 veículos, e de Manaus (AM).

Além de concentrar a movimentação na ponta em empresas que tenham frota própria, a Aliança tem ampliado o uso de ferrovias e de barcaças, neste último caso em Belém (PA) e na Lagoa dos Patos (RS), entre o porto de Rio Grande e Triunfo. O preço para transportar um contêiner naquele trecho, afirma Voloch, mais do que dobrou, saltando de R$ 2 mil para R$ 4,1 mil depois da greve. “Em determinados trechos, a alta do frete variou de 10% a até 140%.”

Grupos industriais e empresas dos setores de siderurgia, combustíveis, automotivo, de distribuição e do agronegócio têm recorrido a ferramentas tecnológicas para enfrentar o tabelamento do frete, aponta Paulo Nazazio, diretor de desenvolvimento de negócios da LLamasoft no Brasil. “A ordem tem sido cada vez mais buscar aumento de produtividade na gestão e operação de transportes.” A plataforma digital e de design da cadeia de suprimentos desenvolvida pela empresa, em Michigan (EUA), e líder global de soluções em supply chain design, segundo Nazazio, permite às empresas “analisar, otimizar e eliminar riscos de decisões complexas antes de agir, dando aos executivos da cadeia de suprimentos mais confiança e controle”.

Segundo ele, a alta de 50% nos preços do frete sobre os valores cobrados anteriormente em alguns trechos rodoviários, como decorrência do tabelamento, tem exigido dos embarcadores o desenho de estratégias alternativas para amortecer o impacto desse aumento nos custos, com exemplos de redução superior a R$ 1 milhão nos gastos com transporte. “Nossa tecnologia possui algoritmos de otimização que ajudam empresas de vários setores a rever a matriz do uso de modais de transporte e a forma de contratação de frete, avaliar o dimensionamento dos veículos e desenhar planos de contingência e de otimização do orçamento na área de transportes”, entre outras aplicações, afirma Nazazio. Fonte: Valor On Line